Segunda onda dos produtos à base de soja avança no varejo

Valor Economico

Depois do expressivo crescimento das bebidas à base de soja, uma segunda geração de produtos chega às prateleiras. A indústria de alimentos está empenhada em arregimentar os adeptos da dieta saudável e não dispensa criatividade para isso. Entre os novos produtos, há desde leite condensado, creme de leite e ovos de Páscoa, até sorvete, macarrão e preparado para bolo. Todos à base de soja.

Além de ter despertado o interesse de empresas tradicionais de alimentos como Sadia, Unilever e Batávia, esse tipo de produto é a grande aposta da agroindústria.

A Cocamar, cooperativa de Maringá e a Olvebra, empresa do Rio Grande do Sul que industrializa soja e encontraram na nova geração dos derivados de soja uma forma de aumentar o faturamento com linhas de mais alto valor. "Conseguimos diminuir a dependência das commodities, afirma Marco Orozimbo, gerente comercial e de marketing da Cocamar, que criou a linha Purity, composta por sucos, creme de leite de soja e, agora, o leite condensado.

A Olvebra concorre com a Cocamar no leite e condensado de soja, mas também criou uma linha completa de produtos com chocolates, bolos e macarrão. A última novidade é o ovo de Páscoa, isento de lactose e glúten e 100% vegetal.

Ainda sem uma estrutura de marketing como as de grandes companhias, essas empresas trabalham para colocar suas novas marcas no varejo. A Cocamar já vende seus produtos nas tradicionais redes do sul (Sonae, Condor, Zaffari e Mercadorama) e está concluindo negociação com Carrefour e Pão de Açúcar.

Ao que tudo indica, a receptividade das redes deve ser grande. O apelo dos produtos naturais - entre eles os derivados de soja - também conquistou os supermercadistas. "O varejo trabalha com margens muito apertadas em várias categorias e essas linhas são perfeitas para aumentar a rentabilidade", afirma Sheila Suly Hissa, da revista "Supermercado Moderno". "A margem líquida desse tipo de produto chega a 50% para o varejista", diz.

Segundo Sheila, os supermercados estão, inclusive, abrindo mais espaço para os produtos naturais. Os artigos que antes ficavam divididos entre várias seções ganharam áreas específicas. "As redes estão interessadas em aumentar o sortimento e agrupar os produtos para facilitar a venda", afirma Sheila. Além disso, há todo interesse em atrair o público consumidor de produtos naturais - maioria de classe A e B - para as lojas.

A Casa Santa Luzia, tradicional empório de São Paulo, reservou o mezanino com 253 metros quadrados apenas para a venda de produtos especiais, como os sem glúten, à base de soja, orgânicos, integrais, diet e light. A loja também oferece no espaço um serviço de nutricionistas que orientam a compra. Depois que os produtos naturais foram reunidos num único espaço, a Casa Santa Luzia registrou aumento de 25% nas vendas dessas categorias.

"Está havendo uma mudança do hábito alimentar e a soja, que sempre foi muito presente na cultura oriental e na dieta vegetariana, começa a ser incorporada no dia-a-dia do brasileiro", afirma Ana Fanelli, nutricionista. "Há muita indicação médica nessa direção tanto para adultos, quanto crianças", acrescenta.

A soja está no rol dos alimentos funcionais - com benefícios comprovados à saúde - mais completos. A proteína da soja é a única proteína vegetal que contém todos os aminoácidos essenciais necessários para dar suporte ao crescimento e a manutenção do organismo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Além de melhorar os níveis sangüíneos de colesterol, a soja é a única alternativa para as pessoas com intolerância à lactose.

Diante dos incontestáveis benefícios da cereal à saúde e do interesse que gera não só do consumidor, mas também do varejo, a indústria investe em tecnologia e acelera suas linhas de produção para criar produtos que transponham a barreira do sabor - por muito tempo esse foi um grande problema - e sair na frente da concorrência.

Depois de lançar hambúrgueres e "nuggets" (tipo de alimento empanado) à base de soja, a Sadia está colocando nas prateleiras uma linha de pratos prontos congelados. A empresa fez várias pesquisas qualitativas, testou 15 diferentes pratos e selecionou dois: lasanha e ravioli com molho à bolonhesa. A empresa levou oito meses entre a concepção e lançamento do produto, dois a mais do que o tempo médio gasto para colocar um novo produto no mercado. "O desafio principal, no caso da soja, é o sabor", diz Gilberto Xandó, diretor comercial de mercado interno da Sadia. A Cocamar, por exemplo, fez vários testes até desenvolver um condensado que permitisse fazer o tradicional brigadeiro.

Os sucos à base de soja parecem ter superado essa questão do sabor. Prova disso é que começam a conquistar o público infantil. No ano passado, segundo dados A/C Nielsen, o mercado cresceu 57% em volume, atingindo 110 milhões de litros e 60% em faturamento, alcançando a cifra de R$ 357 milhões.

A mexicana Del Valle, que trouxe os sucos prontos para beber ao Brasil, demorou mais para lançar sua linha de soja. Uma ano depois da chegada dos sucos de soja ao mercado, a Del Valle dobrou sua participação de mercado, que ainda é pequena, na faixa dos 4%. A empresa criou uma linha infantil à base de soja com personagens de desenhos animados, como "A Era do Gelo" e "Robôs". "Trata-se de um mercado muito atrativo, é importante participar dele", diz Roberta Morelli, gerente de marketing.